Um vídeo gravado em 2025, durante a inauguração da ala pediátrica do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns (PE), mostra a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) sugerindo que uma paciente seja submetida a uma laqueadura sem saber do procedimento. A coluna teve acesso ao vídeo.
“Mas faz sem ela saber! Vai!”, diz Raquel, após ouvir de uma mulher que aparenta ser funcionária do hospital o relato sobre uma paciente que estaria novamente grávida e já teria sete filhos.
Procurada, a governadora admitiu ter feito o comentário.
A laqueadura é um método contraceptivo de esterilização feminina considerado definitivo e de difícil reversão. Realizá-la sem o consentimento da mulher é crime, de acordo com a Lei 9.263/1996 (Lei do Planejamento Familiar).
O que mostra o vídeo
A gravação, de cerca de 13 segundos, foi feita durante a inauguração da ala pediátrica do Dom Moura, em maio de 2025. Raquel aparece em pé dentro de uma sala do hospital, de blusa verde-clara, conversando com funcionários e integrantes de sua comitiva pouco antes de posar para uma foto.
Ao redor da governadora estão pelo menos três pessoas: duas mulheres e um homem de óculos. Uma das mulheres gesticula com as mãos ao falar sobre o tamanho da barriga da paciente. A gestante mencionada na conversa não aparece nas imagens.
“Chega assim, ó, gestante, desse tamanho, com sete ‘menino’ na barriga”, diz uma das mulheres. Raquel reage: “Ai, meu Deus…” Em seguida, afirma: “Aí, a gente tem que fazer laqueadura, visse? Aí, a gente bota na fila da laqueadura.” A mulher responde algo que não é possível compreender na gravação. Raquel, então, completa: “Mas faz sem ela saber! Vai!”
O que diz a lei
A legislação brasileira estabelece que a esterilização deve ser voluntária. A Lei nº 9.263/1996, que trata do planejamento familiar, determina que a realização da laqueadura depende da manifestação expressa da vontade da paciente, registrada em documento escrito e assinado.
A mulher também deve ser informada previamente sobre os riscos da cirurgia, possíveis efeitos colaterais, dificuldades de reversão e métodos contraceptivos reversíveis disponíveis.
O artigo 15 da mesma lei estabelece como crime realizar esterilização cirúrgica em desacordo com essas exigências, prevendo pena de dois a oito anos de reclusão e multa, caso a conduta não constitua crime mais grave.
Resposta da governadora
Procurada pela coluna, Raquel Lyra divulgou nota e publicou um vídeo em suas redes sociais admitindo a fala.
“A governadora Raquel Lyra reconhece que a fala feita em Garanhuns foi infeliz e reafirma seu respeito às mulheres. Raquel defende que toda mulher tenha acesso, pela rede pública, a planejamento familiar com informação e escolha, compromisso que orientou sua gestão em Pernambuco. Raquel Lyra segue focada no que interessa aos pernambucanos: saúde, escola e emprego na vida de quem mais precisa. A eleição deve ser decidida na apresentação de propostas, não na fabricação de ataques. Trata-se de mais uma tentativa de desviar o foco do que realmente importa, que é Pernambuco”, diz a nota.