Modelo de Milei vira ponto de contraste entre Lula e Flávio Bolsonaro na economia

Campanhas usam resultados da Argentina para defender propostas distintas sobre gastos públicos, impostos e regras trabalhistas

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A experiência econômica da Argentina sob Javier Milei entrou no centro do debate eleitoral brasileiro. A menos de duas semanas do primeiro turno, as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) passaram a recorrer ao país vizinho para sustentar visões diferentes sobre política fiscal, tamanho do Estado e mercado de trabalho.

Do lado de Flávio Bolsonaro, a gestão de Milei aparece como referência principalmente nas áreas de controle de gastos, redução de burocracia e desregulamentação. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha do senador, afirmou recentemente que pretende buscar inspiração em medidas adotadas pelo governo argentino. O plano apresentado por Flávio também prevê um “tesouraço” nas despesas e nos impostos, além de um novo teto de gastos, redução de ministérios e cargos comissionados.

Já a campanha de Lula explora outros indicadores da economia argentina para questionar os efeitos sociais dessa agenda. Segundo a Bloomberg, o PT tem destacado a perda de empregos formais e as dificuldades no mercado de trabalho argentino como contraponto ao discurso de ajuste fiscal defendido pelo adversário.

Argentina apresenta indicadores em direções diferentes

Os dados recentes ajudam a explicar por que a experiência argentina comporta leituras distintas. No segundo trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto do país cresceu 2% em relação ao mesmo período de 2025, mas caiu 0,6% na comparação com o trimestre imediatamente anterior, considerando dados com ajuste sazonal. No mesmo período, a taxa de desemprego chegou a 7,9%.

Ao mesmo tempo, o governo Milei mantém resultados fiscais positivos. Em agosto, o setor público nacional argentino registrou superávit financeiro de 635,5 bilhões de pesos. Nos oito primeiros meses de 2026, o saldo financeiro acumulado ficou próximo de 0,2% do PIB, enquanto o superávit primário alcançou cerca de 1,1% do PIB, segundo dados oficiais.

A inflação também desacelerou em relação aos patamares observados no início da administração Milei. Em agosto de 2026, o índice de preços ao consumidor avançou 1,7% no mês, de acordo com o Indec, instituto oficial de estatísticas argentino.

Mercado de trabalho entra na campanha brasileira

As diferenças entre os candidatos também aparecem na discussão sobre legislação trabalhista. Lula e seus aliados defendem a redução da jornada semanal e mudanças na escala de trabalho. Uma proposta discutida no Congresso prevê diminuir a jornada máxima de 44 para 42 horas e, posteriormente, para 40 horas semanais, sem redução salarial.

Flávio Bolsonaro, por outro lado, tem defendido maior flexibilidade nas relações de trabalho e associa essa agenda a um modelo com menos burocracia e intervenção estatal. A campanha também cita a reforma trabalhista aprovada na Argentina como uma das referências de mudanças promovidas por Milei.

Assim, a Argentina passou a funcionar como um exemplo usado em sentidos opostos na eleição brasileira. Enquanto a campanha de Flávio destaca equilíbrio fiscal, desregulamentação e redução da inflação, Lula e seus aliados concentram o discurso nos efeitos sobre emprego e condições de trabalho. Os números mostram, porém, um quadro misto: há avanços em indicadores fiscais e de inflação, ao mesmo tempo em que atividade e mercado de trabalho apresentam sinais de pressão.

Fonte: Agencia Brasil