Muito antes de recuperar endereços tradicionais ou investir no entretenimento paulistano, Álvaro Aoas já percorria as ruas do Centro de São Paulo ao lado do pai. Aos seis anos, acompanhava a rotina do comércio na Rua 15 de Novembro, onde ele vendia canetas e relógios. A experiência ajudou a construir uma relação com a região que, décadas depois, continuaria presente em boa parte de sua vida profissional.
Filho, neto e bisneto de comerciantes, Aoas seguiu cedo pelo empreendedorismo. Aos 19 anos, deixou a faculdade de Engenharia Química e abriu, em 1980, o Novo Pastel, na Rua Senador Feijó. A pastelaria chegou a reunir 12 unidades e marcou o início de uma trajetória que passaria por aproximadamente 40 negócios.
Vieram sorveterias, confecções, casas de forró, buffets infantis e diferentes operações ligadas à gastronomia e ao entretenimento. Nem todas prosperaram. Para o empresário, porém, os fracassos também tiveram papel decisivo na formação de sua maneira de trabalhar.
“Eu não construí minha história porque acertei todas as vezes. Construí porque, mesmo quando as coisas não davam certo, encontrava um motivo para levantar e tentar de novo. Cada negócio me ensinou alguma coisa. Algumas das lições mais importantes vieram justamente dos que não deram certo. Empreender é ter coragem para começar, humildade para aprender e disposição para recomeçar quantas vezes forem necessárias”, afirma.
O Centro como ponto de partida
Nos primeiros anos de atividade, os negócios de Aoas já ocupavam diferentes ruas da região central. Em apenas três anos, o Novo Pastel chegou a cinco endereços, entre eles Riachuelo, Benjamin Constant, Xavier de Toledo e 7 de Abril.
A conexão com o Centro, no entanto, nunca se restringiu à localização comercial. Ao longo do tempo, o empresário passou a observar também como bares, restaurantes e espaços culturais poderiam contribuir para manter as ruas movimentadas.
Uma viagem à Europa, em 1986, ampliou essa percepção. Ao conhecer cafés e bares integrados à rotina urbana de diferentes cidades, começou a pensar em formatos capazes de aproximar gastronomia, música e convivência em São Paulo.
A ideia ganhou forma em 1991, com o Café São Paulo Antigo, no Largo Santa Cecília. Com cerca de 100 m², o endereço recebeu apresentações de nomes como Jamelão, Dori Caymmi, Claudete Soares e Jair Rodrigues.
“O Centro faz parte de quem eu sou. Foi onde aprendi a trabalhar, onde acompanhei meu pai e onde construí boa parte da minha história”, diz Aoas. “Para mim, investir no Centro nunca foi apenas abrir uma porta e colocar um negócio para funcionar. É ajudar a manter a cidade viva.”
A retomada do Bar Brahma
Um dos capítulos mais conhecidos dessa relação começou no início dos anos 2000. Enquanto trabalhava no Café São Paulo Antigo, Aoas recebeu o convite para pensar na recuperação do Bar Brahma, que estava fechado.
O imóvel corria o risco de ganhar outra destinação. Aoas procurou os proprietários e apresentou um projeto que não se limitava à reabertura do bar, mas incluía a intenção de recuperar sua vocação como ponto de encontro da cidade.
Em 9 de janeiro de 2001, o Bar Brahma voltou a funcionar. A experiência consolidou a aproximação do empresário com projetos que misturam gastronomia, música, cultura e preservação de endereços ligados à memória paulistana.
“Quando aceitei o desafio do Bar Brahma, eu sabia que não estava assumindo apenas um bar. Estava assumindo uma responsabilidade com a história de São Paulo”, afirma.
A partir dali, essa atuação ganhou novas frentes, com projetos ligados ao Carnaval, feiras, casas de entretenimento e outras operações. A experiência também contribuiu para a criação da Fábrica de Bares, voltada à gestão e recuperação de estabelecimentos tradicionais.
Empreender também é recomeçar
Aos 64 anos, Aoas continua apostando no Centro como território para novos projetos. Entre as iniciativas recentes está o Boulevard São João, que segue a ideia de aproximar convivência, cultura e entretenimento da dinâmica urbana.
Depois de mais de quatro décadas de carreira, o empresário associa sua trajetória menos a uma sequência de acertos do que à capacidade de reconstruir caminhos quando um projeto chega ao fim.
Essa visão também ajuda a explicar por que o Centro permanece como uma constante em sua história. Para Aoas, trata-se de um lugar onde memória e possibilidade de transformação convivem.
“Se tem algo que os meus mais de 40 negócios me ensinaram, é que nenhuma história precisa terminar na primeira dificuldade. Eu quero continuar contribuindo para que o Centro tenha movimento, cultura, encontros e novas histórias para contar”, finaliza.