Apple lança o primeiro Mac com tela sensível ao toque (16 anos depois de Steve Jobs dizer que a ideia não funcionava)

O novo MacBook Pro mostra um velho hábito da Apple: esperar o usuário mudar para só então mudar junto.

Foto Reprodução Intenet

Na quarta-feira (28), a Apple apresentou o primeiro Mac com tela sensível ao toque da sua história. É o novo MacBook Pro, de 14 ou 16 polegadas, com tela OLED (outra estreia na linha) e chips M5 Pro e M5 Max. Chega às lojas em 6 de novembro, a partir de US$ 2.899 nos Estados Unidos e de R$ 34.999 no Brasil.

Para quem acompanha a marca há algum tempo, a notícia tem um sabor curioso.

Em outubro de 2010, num evento em Cupertino, Steve Jobs explicou por que a Apple não colocava telas touch nos seus notebooks. Disse que a empresa tinha feito muitos testes com usuários e que a ideia simplesmente não funcionava: superfícies de toque não querem ficar na vertical. Rendem uma boa demonstração, mas depois de um tempo o braço cansa (e, nas palavras dele, “quer cair”).

Em abril de 2012, foi a vez de Tim Cook. Perguntado sobre a aposta da Microsoft em misturar tablet e notebook no Windows 8, respondeu que até dava para juntar uma torradeira e uma geladeira, mas que o resultado não agradaria a ninguém.

Dezesseis anos depois da frase de Jobs, a Apple vende a sua torradeira-geladeira.

E a pergunta que fica é: quem mudou de ideia, a Apple ou o usuário?

O braço que cansa

A resposta mais fácil seria dizer que Jobs estava errado. Não estava. O argumento dele era de ergonomia, e a ergonomia não mudou: erguer o braço até uma tela vertical cansa hoje tanto quanto cansava em 2010.

O que mudou foi o hábito.

Quando Jobs falou, o iPhone tinha três anos e o iPad, seis meses. De lá para cá, uma geração inteira cresceu tocando em vidro, e tentar arrastar com o dedo a tela de um notebook virou um gesto quase automático. Não deixa de ser irônico que quem treinou esse reflexo tenha sido a própria Apple.

A empresa reconhece isso, à sua maneira. Em entrevista no dia do lançamento, Greg Joswiak, chefe de marketing, lembrou que a maioria dos profissionais tem um iPad e quase todos têm um iPhone. Ou seja: o usuário já chega ao Mac sabendo tocar.

A outra mudança está na engenharia. Na mesma conversa, John Ternus, hoje CEO da Apple, explicou que a empresa esperou até que o toque não piorasse o produto em nada: o notebook não podia ficar mais pesado nem mais grosso. O sensor foi embutido no próprio painel, a dobradiça foi redesenhada para a tela não balançar com o dedo, e o modelo de 14 polegadas ainda ficou meio milímetro mais fino.

Ternus fez questão de dizer que o Mac continua sendo, antes de tudo, uma máquina de teclado e trackpad. O toque entra como complemento. Tanto que ele resumiu a novidade quase de passagem: o notebook tem tela nova, chip novo, bateria de até 24 horas e, “ah, sim, também tem toque”.

Um Mac touch de R$ 35 mil

Vale o contraponto.

A Apple já tentou levar o toque ao Mac uma vez, e não deu certo. Em outubro de 2016, lançou a Touch Bar, uma faixa sensível no lugar das teclas de função. Em 2023, sete anos depois, a peça saiu de linha sem deixar muita saudade. Por coincidência, o anúncio da Touch Bar completou dez anos na terça-feira (27), véspera do lançamento.

Também não dá para dizer que o mercado estava à espera da Apple. A Microsoft vende computadores com tela touch desde a primeira linha Surface, de 2012, e nem por isso o dedo virou o centro da experiência no Windows. O recurso existe, é usado de vez em quando, e o mouse continua mandando.

Talvez por isso a Apple tenha escolhido estrear a tela sensível no topo da linha. Com preço inicial de R$ 34.999 (e configurações que passam de R$ 170 mil), o novo MacBook Pro mira editores de vídeo, designers e fotógrafos, gente que trabalha no Photoshop, no DaVinci Resolve ou no Blender e talvez queira, de fato, ajustar uma cor ou girar um objeto 3D com os dedos. É um público pequeno o bastante para servir de teste.

O movimento segue um padrão conhecido da empresa. A Apple não fez o primeiro smartphone, nem o primeiro tablet, nem o primeiro relógio inteligente. Costuma esperar o comportamento do usuário amadurecer e a tecnologia permitir uma versão sem concessões. Só então entra, e apresenta a novidade como se tivesse sido ideia sua desde sempre.

Resta saber o que o usuário vai fazer com ela. Se o toque vai virar hábito no Mac, como virou no celular, ou se vai ter o destino da Touch Bar, lembrada mais pela apresentação do que pelo uso.

Afinal, como o próprio Jobs avisou em 2010, uma boa demonstração nem sempre é um bom produto.