A Vale trabalha com a expectativa de que o Brasil mantenha uma postura diplomática moderada nas relações internacionais após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é do diretor financeiro da mineradora, Marcelo Bacci, que considera a estabilidade nas relações com outros países importante para as operações globais da companhia.
Em entrevista à Bloomberg Línea, nesta sexta-feira (30), Marcelo Bacci destacou que a atuação diplomática brasileira tem contribuído para a presença de empresas nacionais no mercado internacional.
“O Brasil, ao longo dos anos, sempre manteve uma posição moderada nas questões geopolíticas e isso tem contribuído muito para empresas brasileiras. O [atual] governo teve essa postura moderada durante os últimos quatro anos”, afirmou Bacci, segundo informações da Bloomberg Línea.
A Vale mantém operações comerciais em diferentes regiões do mundo. Embora a China seja seu principal mercado consumidor, a empresa também possui participação relevante em outros países asiáticos, na Europa e nos Estados Unidos, especialmente no segmento de metais básicos.
Minerais críticos estão entre as prioridades da companhia
Além da política externa, a Vale acompanha a continuidade de iniciativas voltadas ao desenvolvimento da mineração brasileira.
Entre elas está a política de estímulo à produção nacional de minerais críticos, considerados estratégicos para diferentes setores industriais e para a transição energética.
Segundo Bacci, a medida favorece os planos de expansão da companhia, especialmente no segmento de cobre.
“Essa política é positiva porque o nosso plano de crescimento de cobre vai se dar basicamente no Brasil, na região de Carajás”, afirmou.
O executivo também revelou que a mineradora apresentou propostas para o crescimento do setor a todos os candidatos à Presidência da República durante o período eleitoral.
Atualmente, a mineração representa aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, de acordo com os dados apresentados pela companhia. Em países como Chile e Austrália, essa participação ultrapassa 10%.
Para a Vale, existe espaço para ampliar a contribuição econômica da atividade no Brasil.
Setor pode ampliar arrecadação de impostos
A mineradora também projeta crescimento na arrecadação tributária relacionada à atividade mineral.
De acordo com Bacci, o setor gerou cerca de R$ 750 bilhões em impostos nos últimos dez anos. Para a próxima década, a estimativa apresentada é de que esse montante possa alcançar R$ 1,3 trilhão.
“Temos uma expectativa grande que a mineração possa ser um grande motor de crescimento econômico para o Brasil nos próximos anos, tanto em minerais críticos quanto no minério de ferro”, destacou.
O avanço dependerá de fatores como investimentos, condições de mercado e desenvolvimento de novos projetos.
Frete mais caro pressiona resultados da Vale
Apesar das perspectivas de expansão, a companhia enfrenta desafios operacionais e financeiros.
No balanço do terceiro trimestre, divulgado na quinta-feira (29), a Vale informou que os custos mais elevados de transporte marítimo afetaram seus resultados.
O presidente da empresa, Gustavo Pimenta, explicou a investidores que a estratégia para reduzir a exposição às oscilações do frete está concentrada em contratos de longo prazo.
A expectativa é que aproximadamente 75% das necessidades de transporte da mineradora estejam cobertas por contratos com tarifas fixas nos próximos anos.
Segundo Bacci, o frete médio da Vale ficou próximo de US$ 22 por tonelada em 2026, enquanto os valores praticados no mercado à vista chegaram a cerca de US$ 32 por tonelada.
A diferença reforça a importância dos contratos de longa duração para a administração dos custos. De acordo com a companhia, essa estratégia pode proporcionar uma economia de até US$ 3 bilhões neste ano.
Lucro cai e empresa adota postura mais conservadora
A Vale registrou lucro líquido de R$ 6,43 bilhões entre julho e setembro, resultado aproximadamente 50% inferior ao observado no período de comparação informado pela companhia.
O desempenho foi influenciado por efeitos cambiais e provisões relacionadas à Samarco.
Diante das incertezas econômicas e geopolíticas, a mineradora pretende manter uma administração financeira mais conservadora, com foco na preservação de caixa e no controle do endividamento.
Nesse cenário, Bacci afirmou que não há perspectiva de distribuição de dividendos extraordinários ainda em 2026.
“Para esse ano não deve acontecer, não tanto pelo desempenho da geração de caixa, que está indo muito bem, mas por todas as incertezas geopolíticas previstas para 2027”, explicou.
O executivo acrescentou que a possibilidade poderá ser reavaliada no próximo ano, conforme as condições econômicas e os resultados da companhia.
A Vale também mantém aberto um programa de recompra de ações, em um momento de queda nas cotações de empresas de mineração no mercado internacional.
Por enquanto, a prioridade é equilibrar os investimentos previstos para a expansão das operações com a manutenção de uma estrutura financeira preparada para eventuais oscilações do cenário global.
Fonte: Bloomberg Línea