Quem é Miguel Vázquez, empresário por trás do Ueno Bank e da crise no Paraguai

Aos 36 anos, banqueiro que pretendia levar sua empresa à Bolsa de Nova York foi preso após intervenção no banco, que recebeu mais de US$ 800 milhões em depósitos públicos

Foto: Reprodução Instagram

Aos 36 anos, o empresário Miguel Vázquez havia transformado um negócio familiar de crédito em uma das instituições financeiras de maior alcance do Paraguai. Seu objetivo era criar o primeiro unicórnio do país, nome dado às startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, e levar a empresa à Bolsa de Valores de Nova York. No entanto, a trajetória sofreu uma reviravolta nesta semana, com o fechamento do Ueno Bank, sua prisão e uma crise que atingiu o governo do presidente Santiago Peña.

Na terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai iniciou o processo de resolução do Ueno após identificar problemas de solvência. A medida deixou milhões de clientes com restrições de acesso aos depósitos e levantou questionamentos sobre a relação entre a instituição financeira e o governo.

O caso ganhou dimensão política porque Peña manteve investimentos em uma empresa do Grupo Vázquez até março de 2025. Além disso, durante sua gestão, o Ueno recebeu mais de US$ 800 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos da previdência social paraguaia.

De um negócio familiar a um banco de alcance nacional

A história de Miguel Vázquez no setor financeiro começou ainda na adolescência, quando ajudava o pai nas operações da Credicentro. A empresa familiar oferecia microcrédito a consumidores que tinham dificuldade de acesso aos serviços bancários tradicionais.

Com o passar dos anos, Vázquez assumiu a direção dos negócios e ampliou a atuação do grupo. Em 2023, transformou a Credicentro no Ueno Bank, que cresceu rapidamente com uma proposta voltada à digitalização dos serviços financeiros.

A instituição passou a atender cerca de três milhões de clientes, alcançando uma parcela expressiva da população paraguaia. O crescimento também atraiu investidores internacionais.

Em junho de 2026, a holding do Ueno foi avaliada em aproximadamente US$ 470 milhões, após o banco húngaro OTP ampliar sua participação para 10%. Na época, a fatia de Vázquez tinha valor estimado em até US$ 375 milhões.

O empresário também controlava o Grupo Vázquez, conglomerado com atividades em setores como pecuária, comércio eletrônico e serviços financeiros. Segundo informações divulgadas pela Bloomberg, o grupo empregava cerca de seis mil pessoas e havia registrado receitas superiores a US$ 100 milhões em 2025.

Expansão, luxo e presença no futebol

O crescimento do Ueno também apareceu nas estratégias de marketing da instituição. Em 2025, o banco ganhou visibilidade ao patrocinar a seleção paraguaia de futebol, ampliando sua presença no cotidiano dos consumidores.

Fora do ambiente corporativo, Vázquez cultivava uma imagem ligada ao esporte e ao universo dos negócios. Praticante de triatlo, participava de competições de Ironman e demonstrava interesse por automobilismo e carros esportivos.

A sede do Ueno, em Assunção, também refletia essa proposta de modernidade. Conhecida como The Matrix, reunia ambientes de vidro, madeira, vegetação e espaços de convivência inspirados na arquitetura de empresas de tecnologia.

O contraste entre essa estrutura e a atual situação financeira do banco tornou-se um dos aspectos mais marcantes da crise.

Relação com o governo amplia repercussão

A proximidade entre Miguel Vázquez e Santiago Peña passou a receber maior atenção após a intervenção do Banco Central. O presidente havia investido em uma empresa do grupo empresarial, embora não diretamente no Ueno Bank.

Durante seu governo, os depósitos de recursos públicos na instituição cresceram de maneira expressiva. Parte desses valores pertencia a órgãos estatais e ao sistema previdenciário.

O Banco Central também entrou no centro das discussões. Carlos Carvallo, que presidia a autoridade monetária e havia participado do processo de autorização bancária do Ueno, trabalhou anteriormente em uma empresa ligada a Vázquez. Ele deixou o cargo durante a crise.

Na quinta-feira (5), Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência, em meio à pressão política e à abertura de um processo de impeachment.

A crise levantou questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização bancária, a concentração de depósitos públicos e os possíveis conflitos de interesses envolvendo autoridades e empresários.

Prisão de Vázquez e futuro dos depósitos

A Justiça paraguaia determinou a prisão preventiva de Miguel Vázquez e de outros ex-dirigentes do Ueno Bank. A investigação envolve suspeitas de irregularidades financeiras, incluindo operações de crédito com empresas relacionadas ao grupo controlador.

A medida não representa uma condenação definitiva. As responsabilidades individuais ainda deverão ser apuradas no decorrer do processo.

Enquanto isso, o Banco Central conduz os procedimentos previstos na legislação para tratar os ativos e as obrigações da instituição.

O sistema paraguaio de garantia de depósitos prevê proteção limitada para os valores mantidos por cada cliente. Entretanto, a situação dos recursos que ultrapassam esse limite depende das medidas adotadas pelas autoridades.

O colapso do Ueno interrompeu os planos de expansão internacional de Miguel Vázquez e expôs a dimensão das relações entre o sistema financeiro e o poder político no Paraguai. Agora, além das investigações, o país enfrenta o desafio de restabelecer a confiança dos depositantes e esclarecer o destino dos recursos públicos mantidos no banco.

Fonte: Bloomberg Línea.